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Moçambique está a "afundar-se" numa dependência de recursos

O ex-secretário-geral adjunto da ONU e atual alto representante da União Africana para as parcerias com a Europa, alertou hoje que Moçambique "está a afundar-se numa dependência" dos seus recursos naturais, em vez de fazer reformas estruturais.

Moçambique está a "afundar-se" numa dependência de recursos
Notícias ao Minuto

06:28 - 14/07/19 por Lusa

Mundo Carlos Lopes

"Moçambique não é um país que esteja a fazer reformas para transformar estruturalmente a sua economia. É antes um país que está a afundar-se mais na dependência rentista", afirmou o guineense Carlos Lopes, que foi secretário-geral adjunto de Kofi Annan nas Nações Unidas.

O responsável refere-se a países rentistas como aqueles que vivem das receitas dos seus recursos naturais, sem lhes acrescentar valor ou aproveitá-los para melhorar a economia.

Para o antigo dirigente das Nações Unidas, que é também professor na Universidade Nelson Mandela, na África do Sul, Moçambique "tem riquezas extraordinárias". "As reservas de gás do país são equivalentes à riqueza em gás de um país como o Qatar", exemplificou.

Portanto, para aquele que é considerado como uma das cem pessoas mais influentes do continente africano não há a "mínima dúvida" que Moçambique é "potencialmente" um dos países mais ricos de África.

"Acho que do ponto de vista dos recursos naturais, talvez o país mais rico que Moçambique seja apenas a República Democrática do Congo. De resto, Moçambique é o país mais rico do ponto de vista dos recursos naturais conhecidos", comentou.

Por isso, "é preciso muita cautela na forma como se faz a governação dessa riqueza", avisou, justificando: "Porque se se começa a contrair dívidas ocultas antes mesmo de jorrar o que quer que seja do chão - não há ainda um metro cúbico de gás produzido e já existem dívidas relacionadas com o gás - é algo de muito preocupante".

Sobre um projeto e visão de futuro para o país, Carlos Lopes acredita que vai surgir da própria sociedade civil e está muito para além dos partidos políticos.

"Espero que o Governo agora tome as medidas que se impõem. Mas temos pelo menos assegurado que existem sobressaltos dentro da sociedade moçambicana e há muita gente que denuncia, não está de acordo, e protesta. Vamos acreditar que isso vai ter efeitos", afirmou em entrevista à Lusa em Lisboa, cidade onde recebeu na quinta-feira o "Prémio José Aparecido de Oliveira" da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que já lhe tinha sido atribuído em 2016.

"Com todo o respeito pelos partidos políticos moçambicanos, acho que a questão fundamental de Moçambique transcende a saúde e a estabilidade desses partidos", acrescentou.

"O que está em jogo é um projeto e uma visão estratégica para integrar recursos naturais num país moderno - Moçambique tem essa vantagem, que pode rapidamente tornar-se em desvantagem se não tiver visão estratégica", comentou.

Essa visão estratégica tem que emergir, não necessariamente de dentro dos partidos, pode vir dos principais atores económicos, inteletuais ou da sociedade civil organizada.

"Moçambique já deu provas no passado de ter uma grande capacidade de discussão intelectual, precisa de restabelecer essas suas capacidades, essa sua tradição e a partir dela tirar vantagem dos recursos naturais", sublinhou o professor guineense.

Quanto à forma como a União Africana - que ele representa nas parcerias com a Europa, e onde faz parte de um grupo de quadros africanos selecionados pelo Presidente do Ruanda, Paul Kagami, presidente daquela organização, para fazer reformas económicas - olha para aquele país, Carlos Lopes disse: "Olha para Moçambique como para todos os países que têm problemas de governança."

Porém, o antigo dirigente da ONU considera que Moçambique "é um bom problema para se ter, porque é um país rico".

"Portanto, agora tem é de resolver como fazer com essa riqueza algo de potencialmente positivo, e não transformar isso numa espécie de doença holandesa de proporções gigantescas", avisou.

Na área das indústrias extrativas, e porque são muitos os países no continente africano que têm aquele setor, a União Africana criou um documento designado "visão mineira africana", que serve de baliza para os Estados, para que estes façam "políticas mais holísticas em matéria de indústrias extrativas e possam eventualmente criar cadeia de valor à volta delas", referiu o professor.

Neste contexto, exemplificou que Moçambique tem alumínio, que deveria transformar, indo além de o exportar e da sua primeira fase de transformação. "Mas para isso precisa de eletricidade", ressalvou.

E "o que é curioso é que o país exporta essa eletricidade para a África do Sul em vez de a utilizar para potenciar a sua indústria da alumina".

Este tipo de "incongruências", advêm, na opinião de Carlos Lopes, do "rrastamento de políticas estabelecidas sem uma pausa para refletir em novos contextos".

É isso que tem de mudar, concluiu

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